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VOCÊ TEM FOME DE QUE?

Ganhei uma tartaruga. Na verdade, comprei uma para o meu filho, mas lentamente percebi que de bicho de estimação de filho, é o pai quem tem que ficar de olho. Assim foi.

O cara tem personalidade forte, não come qualquer coisa. Indicaram um tipo de ração, que não foi aprovada no cardápio. Voltei à loja e aprendi que a trachemys dorbignyi tem paladar seletivo. Ela observa o alimento e o despreza, se encolhe e fica me olhando com aquela cara esnobe.

O Sr. Nogueira, que há trinta anos lida com criaturinhas pecilotérmicas, disse que tal como os mais exigentes de nós, as tigre-d’água também se fazem de difícil quando a alimentação não lhe agrada.

Voltei pra casa com novo petisco, lancei ao mais crítico gourmet da família e esperei. Veio lentamente, como lhe é próprio, observou com cara de poucos amigos, nadou ao redor do pequeno bastão que mistura camarões, peixes e verduras e mordiscou.

Parece ter gostado. Comeu e seguiu seu nado até o canto preferido para breve hibernação.

Lembrei-me do provérbio judaico que diz que “para quem tem fome, até o amargo vira doce”. É assim com os répteis quelônios, e é assim na vida. Nossa insatisfação existencial faz com que chamemos de saborosa o que nem refeição é, o que não alimenta a alma, o que não nutre as emoções, o que apenas nos torna ruminantes vazios de sentido.

Melhor se aprendermos a rejeitar o que não é bom alimento com a mesma elegância que meu amiguinho despreza o que não lhe apetece.

©2015 Alexandre Robles

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