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UMA ESCOLA CHAMADA PATERNIDADE

Sei que, como pai, preciso ensinar meu filho, prover-lhe satisfação das necessidades essenciais, protege-lo dos perigos e estimula-lo ao desenvolvimento e à autonomia. E sei que muitos pais se esquecem dessas tarefas, portanto, poderia escrever sobre cada uma. No entanto, ultimamente tenho pensado no que meu filho me ensina e realiza em mim.

Aprendo com ele quem fui e quem sou. Descubro muito de minha identidade, quando ao cuidar dele no dia a dia, vejo em mim padrões, comportamentos, jeitos, trejeitos, tendências, palavras e tom de voz, que herdei de minha mãe, avós, tios, mestres. Todos os que imprimiram em mim um pouco de si, me visitam quando estou tocando a vida do meu filho. Assim, nossa relação parece um submarino que enquanto navega águas profundas, levanta o que há de submerso, revelando tesouros náufragos e criaturas desconhecidas de meu inconsciente.

Meu filho é um espelho através do qual vejo o meu passado e me dá oportunidade de tratar de modo realista, misericordioso, perdoador. Entendo tanto os meus pais; suas razões, intenções, decisões!

Aprendo com meu filho um pouco mais sobre o Amor de Deus. Eu sou falho, egoísta, preguiçoso, irascível, enfim, você sabe. E ainda assim consigo amar meu filho de uma maneira tão abnegada! Penso em como ele está; no que posso fazer para o seu bem; trabalho para dar-lhe conforto e oportunidades; velo seu sono e cubro-o no frio; se preciso for, aguento a fome para ele comer. E me alegro em ve-lo brincar, jogar e ganhar, se divertir. Responsavelmente permito-o sofrer frustrações e perdas, consolo sem fragiliza-lo, demonstro a importância do cuidado e das consequências na vida.

De vez em quando, lembro que Deus é meu Pai do tipo infinitamente melhor que eu.

Também aprendo os limites da individualidade, enquanto sou desafiado por minha consciência a diminuir minhas projeções sobre quem ele é e quem irá se tornar. Ele é outro, não extensão de mim. Sou desafiado a ensinar-lhe valores de vida e fé, mas a não impor comportamentos e práticas religiosas. Ensino e oro pedindo a Deus que se revele a Ele. Trabalho meu coração para não projetar sobre ele expectativas profissionais e financeiras, mas apenas expressar meu desejo de que ele seja um bom homem, que saiba viver bem a vida, que promova o bem aos seus.

E quando tendo a anular a mim mesmo a fim de que tudo seja pra ele, especialmente quando em minha vida eu disse que suportaria situações indignas por causa dele, ouço Nosso Pai dizendo que não deveria fazer isso, porque havia o risco de em abrindo mão de muito hoje, quando ele crescesse e seguisse seu caminho, eu poderia exigir que ele me deve algo. Entendi que devo dar ao meu filho o melhor de mim, mas não tudo o que sou, porque de tudo o que eu abrir mão hoje por causa dele, posso cobrar amanhã sem que ele tenha qualquer responsabilidade.

Aprendo com meu filho a ama-lo sem abrir mão de quem eu sou, a fim de que tudo o que lhe ofereço hoje, sendo doação não constrangedora, não seja cobrado quando ele estiver escrevendo sua história, talvez distante de mim; fazendo suas escolhas, diferentes das minhas; sendo quem ele é.

Quando chegar o dia de ele seguir em frente, eu espero poder agradecer a Deus a oportunidade de ter podido cuidar dele sem me perder de mim mesmo, a fim de que enquanto ele se aventure escrevendo sua própria história, a minha não tenha um ponto final, apenas a vírgula da adaptação e da reinvenção digna da maturidade.

Sobretudo, oro a Deus que permita que meu filho seja pai também, para que possa entender o quanto o amo e comece a aprender as lições mais importantes da vida, com o seu filho.

©2015 Alexandre Robles

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