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DIVÓRCIO E AMPUTAÇÃO

O que vem depois

Em vigência, nos dias de Jesus, havia a Lei de Moisés e a tradição dos líderes religiosos de Israel. A interpretação do que o novo testamento oferece à primeira, depende de como o povo se relacionava com a segunda. Desse exercício é que devemos derivar nossa leitura.

Havia a Lei de Moisés, que normativaza o casamento, e a Tradição, que o fazia valer na prática. De acordo com Moisés, o casamento era uma união entre homem e mulher, que não deveriam ser parentes próximos. Havia forte recomendação a que não houvesse casamento entre israelitas e pessoas de outros povos. E havia o divórcio, como concessão.

A Tradição tornou o casamento uma relação comercial e fez da mulher uma propriedade do homem. Cobiçar a mulher do próximo era o mesmo que cobiçar sua propriedade. Uma mulher casada pertencia ao marido e a solteira ao pai. Somente o homem passava a ter direito à poligamia e também ao divórcio.

Na Lei de Moisés o adultério requeria apedrejamento. A Tradição tornou o adultério apenas um ato feminino, ou seja, somente a mulher é quem adulterava, caso tivesse outro homem além de seu marido, e merecia o apedrejamento. O homem, como já dito, podia ser polígamo.

Com o passar do tempo, a Tradição criou nova modalidade de relacionamento. A poligamia exigia do homem provisão e proteção a todas as esposas que tivesse e como isso começava a tornar-se caro, surgiu a acomodação que protegia o homem em seu direito à poligamia, sem obriga-lo ao dever da provisão, o repúdio.

Diferentemente da Carta de Divórcio, o repúdio era o ato em que o homem desprezava publicamente sua mulher, a mantinha sob seu poder, porque não havia lavrado Carta de Divórcio, e a mantinha sua propriedade, sem precisar tratá-la como honra de mãe de seus filhos. Com o repúdio, ele podia ter nova esposa. Mantinha a antiga sob seu domínio, não precisava tratá-la com dignidade de esposa e podia se casar novamente.

Com o passar o tempo, a Tradição começou a discutir se o homem poderia repudiar sua esposa por qualquer motivo. Havia os que diziam que sim e os que diziam que somente em caso de adultério.

Nesse ambiente é que trataram a questão com Jesus.

Primeiro, Jesus disse que o adultério está no coração, do homem especialmente, não exclusivamente, óbvio, mas para efeito de confrontação histórica, era necessário que Jesus afirmasse que adultério era algo interno e espiritual, para uma sociedade que acreditava que o adultério era praticado somente por mulheres. Assim, Jesus solapa o machismo.

Depois, Ele afirma que a mulher repudiada não pode se casar de novo e o homem que se casa com esta, também estará em adultério. Aqui, Ele está fazendo uma constatação da realidade. Era isso o que acontecia, porque os homens repudiavam suas esposas ao invés de se divorciarem delas, mantendo-as presas a ele, como propriedade, portanto, uma vez repudiada, e não divorciada, ela não podia “ser” de outro homem, caso isso acontecesse, ambos estariam cometendo adultério, a mulher repudiada (porque ainda pertencia legalmente ao seu marido) e o homem que a desejasse. Jesus está afirmando um problema social grave, resultado de uma má interpretação da Lei, e baseada na Tradição religiosa.

Quando questionado diretamente, por causa de seus discursos contra o repúdio e a favor da mulher, o assunto chegou à base. E como fica Moisés? Ele permitiu a Carta de Divórcio! Sim, respondeu Jesus, o divórcio é uma concessão, por causa da dureza dos corações. Quando não é possível que se continue, porque os corações não encontram mais saída, então o divórcio é a concessão. Mas, enfatizou Jesus, não foi assim no princípio, quando Deus criou homem e mulher e abençoou a união física, emocional e espiritual e decretou que deveria ser até o fim da vida. O princípio não é o Divórcio, ele é apenas concessão. O repúdio não é divórcio, é uma agressão imposta num relacionamento e que deve ser inaceitável.

Diante da afirmação de Jesus de que não somente a mulher é passível de adultério, mas o homem também e de que o adultério acontece antes no coração; diante de sua afirmação de que o repúdio é uma situação social absurda que promove a indignidade feminina e a transforma numa “adúltera” caso tente refazer sua vida com outro homem; diante de sua afirmação de que homens e mulheres são iguais perante Deus no casamento, a reação dos próprios discípulos foi de surpresa e cínico desanimo. Perguntaram que vantagem havia então em casar?

Em Jesus acaba a “vantagem machista-patriarcal”.

O que Deus odeia, registrado em Malaquias, é o repúdio. Não que Ele ame o Divórcio, mas é necessário compreendermos a diferença.

Repúdio é um ato de agressão, desprezo e aprisionamento, que acontecia nos dias de Jesus de forma concreta e pública, quando um homem que não quisesse mais sua esposa a mantinha presa e recebia o direito de contrair novas núpcias.

Divórcio é uma concessão para que as pessoas que não conseguem mais viver juntas, possam recomeçar suas vidas.

Deus abençoa o casamento, concede o divórcio, que torna livres as pessoas para se casarem novamente, e abomina o repúdio.

Hoje, qualquer relação que envolva agressão, desprezo, opressão, rejeição, descaso, de que ordem for, é um repúdio, mesmo que esteja legitimada pelas leis do casamento.

Hoje, o divórcio é o mesmo que era em Moisés e em Jesus. Com a lembrança enfática de que o divórcio é expediente de casos extremos, tão extremos que Jesus afirmou que deveria ser administrado em casos de adultério. Aliás, Jesus humanizou as relações ao dizer que em caso de adultério é melhor haver divórcio, uma vez que pela Lei o adultério gerava condenação à morte. O que você prefere, a morte da Lei ou a Graça de Jesus? Para Jesus, nem o adultério deveria promover condenação à morte.

Considerando a diferença entre repúdio e divórcio; considerando o adultério como doença da alma antes de ser consumação na cama; considerando a maneira humanitária de Jesus tratar a questão em confrontação ao machismo legalista de sua época, leio, avalio e considero:

Deus deseja o casamento indissolúvel, monogâmico, entre homem e mulher. Este é o ideal, este é o princípio. Tudo o mais será arranjo histórico surgido da tensão entre o Reino de Deus e os reinados humanos. Inclusive, algumas pessoas viverão situações que impossibilitam-nas para o casamento monogâmico, entre homem e mulher, serão como Eunucos, que assim se farão por causa do Reino de Deus. Suas tensões serão tão profundas, que precisarão anular parte de si mesmas pelo Reino de Deus, se assim puderem;

Repúdio é qualquer forma de indignidade no casamento. Não deve ser aceito. Ninguém deve permanecer casado sob risco de integridade física, emocional, social e espiritual;

Divórcio é concessão, não opção de resolução de problemas no casamento. Quando duas pessoas não podem mais permanecer casadas, melhor que se divorciem antes que haja repúdio.

Na prática:

Somente gente insana casa pretendendo se divorciar;

Há que se tentar de todas as maneiras tratar o casamento a fim de melhorar a relação e a vida;

É melhor divorciar que repudiar;

Quem se divorcia está livre para recomeçar sua vida.

Há pessoas que precisam entender tais aspectos para que tenham discernimento espiritual diante de suas próprias histórias. Além da dor que envolve o fim de um casamento, muitos carregam culpas e são alvos de julgamento.

Comparo o divórcio a uma amputação.

Você está diante de um médico que avalia que uma parte do seu corpo está em estágio avançado de putrefação, que compromete a saúde do restante do corpo e exige a amputação. Neste momento você pode exercer sua fé e orar a Deus, que pode curar a parte morta. Ele pode sim, mas nem sempre faz. Sobretudo nos casos do casamento, quando Deus não faz o que não deixamos que Ele faça. Nosso coração é o único ambiente onde Deus só reina sob permissão. Em corações endurecidos, nem Deus governa.

Voltemos à amputação. Você recebeu o diagnóstico médico, orou, pediu milagre, fez sua parte e a parte moribunda de seu corpo está tomando o restante, um pouco a cada dia. Chegou a hora de decidir. Manter a parte é arriscar o corpo todo, tirá-la, é perder uma parte de si mesmo.

Este é o dilema. Não existe vida fácil para quem precisa decidir entre divórcio e recomeço. Há pessoas que acham que vão “resolver um problema” com o divórcio, mas se enganam não entendendo que a partir disso sua vida será ainda difícil, muito.

É por isso que ninguém decide por amputar uma perna por estar com unha encravada. Somente um louco decidiria amputar o pé, sentado na cadeira do podólogo. Unha encravada a gente trata, põe remédio, muda hábitos, faz de tudo para não somente não perder dedo, mas, principalmente ter melhor qualidade de vida.

No entanto, você está diante do especialista e não é “unha encrava”, mas trombose grave, não tem jeito, terá de amputar. Marca a cirurgia e realiza a intervenção. A partir deste dia, parte de você morre, acaba. Não existe amputação fácil, não existe divórcio fácil.

Há três atitudes que preocupam. A primeira é de gente que, porque cansou de algo em seu casamento, resolve se divorciar. É como amputar a perna por causa de unha encravada. A segunda é gente que não se submete à amputação por causa das aparências sociais, por medo de encarar o julgamento dos outros, “prefere morrer” a recomeçar a vida sem uma perna. A terceira é justamente o julgamento sobre quem precisa de amputação, como se fosse uma escolha moral, do tipo, um dia a gente acorda e resolve amputar o pé porque não gosta da cor que usou para pintar a unha.

Um divórcio é uma amputação. Considere isso:

Ninguém nos prepara para viver como amputado, simplesmente porque ninguém prevê isso no planejamento da existência. Assim é com o divórcio. Há cursos e livros sobre o casamento, em todas fases, com fartura à disposição de quem quiser. Mas pouco há disponível para ensinar a vivermos após o divórcio, nem mesmo para realizar um divórcio sadio. Sim, há divórcio sadio e divórcio doente, assim como é diferente amputar uma perna num hospital especializado e arranca-la no quintal de casa com canivete. O pós-operatório é completamente diferente.

Os amputados/divorciados precisarão de muita força de vontade para recomeçar a vida. Existe vida após a amputação/divórcio. Aliás, há muitas pessoas que se tornam uma melhor versão de si mesmas após uma amputação, sua experiência traumática tem poder de torná-las fortes, resilientes, decididas, com imenso poder de superação. Muitos tornam-se atletas sem uma perna, quando passaram uma vida sedentária antes. Há vida após o divórcio e ela pode sim ser melhor.

Amputados/divorciados precisam de próteses e de terapias para conseguirem andar novamente com a melhor possibilidade. Sem ajuda terapêutica fica mais difícil recomeçar.

Depois que passamos pela amputação/divórcio, precisamos aprender a lidar com o “olhar” ingênuo, descuidado, legalista e de ordens semelhantes. Lembre-se, a gente entende melhor quando passa pela mesma experiência. Por isso, não devemos esperar a aprovação de todos para recomeçarmos.

Amputados relatam a “dor fantasma”. Quando “sentem” o membro amputado como se ainda estivesse ali. Isso é tão real para divorciados! Haverá dores, coceiras, incômodos, como lembranças do passado. Precisamos lembrar nossa mente de que é “dor fantasma” e as pessoas que convivem com os amputados/divorciados precisam entender este fenômeno.

Enfim, que ninguém pense que estou sugerindo que se planeje o divórcio/amputação, isso seria tão tétrico e trágico quando fazer uma plano de previdência para poder amputar um braço aos quarenta anos. Óbvio que não tem propósito, significado, lógica.

Relatei os textos bíblicos de Mateus 5, Mateus 19 e Malaquias 2.16. Valho-me de duas leituras esclarecedoras indicadas abaixo.

Há tantos desdobramentos da vida após a amputação/divórcio! Quem sabe eu possa falar um pouco mais, adiante?

Desejo a todos, amputados ou não, paz, bem e vida de Deus, que nasce do conflito entre Seu Reino Ideal e nossos reinos humanos, gerando a vida possível de ser vivida aqui e agora, por gente que ama a Deus, a vida e vive com os pés aqui, enquanto mantém a cabeça em Deus!

http://www.pastorjoao.com.br/123/?p=654 encontrei o texto do Walter L. Calisson, neste blog. Recomendo este texto, não conheço o blog ou o responsável por ele.

Eunucos pelo Reino de Deus http://books.google.com.br/…/Eunucos_pelo_reino_de_Deus.htm…

© Alexandre Robles

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