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VAI FICAR POR ISSO MESMO?

Há anos que reflito sobre José, o Pai de Jesus. Antes e depois de saber o que, me parece, ele soube. Era noivo de uma moça e num dia ela lhe disse que estava grávida. Como o filho não era dele, a história que ouviu a partir dali, levou-o a tomar a decisão que tomou. Ela disse que a criança era um milagre de Deus em seu ventre, que permanecia virgem, mas quem acreditaria tão facilmente numa história dessas? José, aparentemente, também teve dificuldades. Percebo isso a partir de seus próximos movimentos.

 

Decidiu separar-se dela. Não acreditou na história contada pela menina que sendo sua noiva, aparece grávida de outro homem. Uma mulher que perdesse sua virgindade antes do casamento, seria desprezada e poderia ser inclusive morta, ainda mais na situação que se apresentava, de traição. O adultério era crime de pena de morte. O pai deveria apresentar a filha para ser apedrejada em praça publica.

 

José acreditava ter sido traído e a história que a moça contou parecia tão absurda que qualquer homem em seus dias exigiria do pai a reparação da desonra, com a morte da menina.

 

Mas ele decidiu que iria fugir da cidade. E há tantas motivações possíveis para isso. Primeiro, ele se sentindo traído, resolveu perdoar o que lhe havia acontecido, ao não exigir a reparação do dano sofrido. Ele foi emocionalmente lúcido ao abrir mão de uma justiça humana que apenas se trata de vingança, pois de nada adiantaria a morte da menina para tratar a dor que seu coração carregaria, se não apenas para que sua honra publica fosse retratada. As aparências não importaram mais que a verdade, por isso que a justiça não foi confundida com vingança. Ele abriu mão de reparação e é assim que começa qualquer processo de perdão.

 

E mesmo perdoando a menina, decidiu que não mais ficaria com ela. A traição inviabilizou a reconciliação. A dor de ser traído era tamanha que não conseguia mais confiar na menina. E continua sendo perdão, porque perdoar alguém não torna obrigatória a permanência do relacionamento; pode-se sinceramente perdoar e ao mesmo tempo desejar a distância segura do vínculo que pode acarretar novas dores. Perdoar é não exigir reparação. Manter-se numa situação de constante sofrimento e renovação de agressão ou traição, pode ser apenas masoquismo.

 

E ainda, quando José decide fugir da cidade, à noite, ele está tomando sobre si consequências tão pesadas que desconfio que um ser humano é incapaz de carregar. Depois de alguns dias sem notícias do rapaz, as pessoas na cidade começariam a pensar que ele havia abandonado sua noiva. Em breve, saberiam da gravidez e ainda que ela contasse a história da fecundação sobrenatural, mais facilmente acreditariam no que é lógico, o rapaz engravidou a moça e fugiu. Diante desta tese, ele, José, seria considerado o responsável e calado, distante, nada faria para corrigir o engano histórico.

 

Para ele, depois de ser traído pelo amor de sua vida, depois de ter visto sua história acabar, depois de ter morrido internamente, importava bem pouco o que as pessoas iriam pensar sobre o que aconteceu.

 

Maria viveria na mesma comunidade, não seria considerada adúltera, não seria apedrejada e possivelmente seria consolada pelos amigos e pela comunidade. A mesma comunidade de José, que agora estaria distante, sozinho e por uma razão espiritual mais profunda, não tentaria corrigir a impressão que as pessoas teriam de que ele era o culpado de tudo.

 

Nos dias de hoje, José ficaria sabendo de Maria através das fotos publicadas nas redes sociais e do apoio dos amigos de outrora à menina que passara para a história com a tese de vítima de uma relação interrompida por ele.

 

Que dor! A incompreensão! O trago amargo de uma pergunta que ecoaria sussurrante na mente: “vai ficar por isso mesmo?”.

 

Um anjo apareceu a José, depois que ele havia decidido fugir secretamente e antes de ter terminado de fazer as malas, contou a verdade e disse que ele havia sido escolhido para ser pai do Filho de Deus. Que boa escolha para pai, o homem que melhor encarna os limites mais profundos da dor, da traição, da angústia e do perdão.

 

Que os anjos que honram os perdoadores console os corações!

 

©2016 Alexandre Robles

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