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SANTO DE CASA

Um dilema presente em todas as relações íntimas de um cuidador é a sensação da rejeição de sua oferta, especialmente dos mais próximos. Pastores que não sentem que seus familiares mais próximos lhes dão ouvidos; terapeutas que não têm acesso mínimo à alma de seus mais íntimos; professores que não conseguem inspirar aos estudos seus próprios filhos. Muitas vezes é assim! Foi assim com Jesus também. No desenvolvimento dos Evangelhos podemos observar este fenômeno presente. Ainda menino, discutindo Teologia com os Doutores da Religião, não foi compreendido pelos pais. Já adulto, ao iniciar seu ministério público, foi tratado com descrédito pelos irmãos. Em outra ocasião, sua mãe e irmãos pretendiam leva-lo de volta pra casa de qualquer maneira e Ele respondeu que sua família eram seus discípulos. Em sua cidade Natal foi rejeitado e afirmou que “o profeta não é aceito em sua própria terra”.
 
Traz sofrimento tal realidade, quando aqueles que atendem, ensinam e acolhem a tantos, não se sentem efetivos na tentativa de “pastorear” os seus. Gera incompreensão e quase sempre uma obsessão pessoal que leva à imposição. Nasce o conflito e muitas vezes as pessoas mais próximas passam a rejeitar enfaticamente qualquer tentativa de aproximação, ensino, acolhimento. Há uma resistência natural dos mais próximos, eles têm a impressão de que aqueles que pastoreiam, ensinam, acolhem estão sempre educando e analisando. Há que se falar menos, oferecer menos, orar mais.
 
E a esperança é de que os mais próximos hão de assimilar o que lhes é necessário na vida, através de outras fontes, e um dia irão olhar com respeito a quem manteve-se por perto, observando e disponível. Com Jesus foi assim. Depois dos conflitos familiares que viveu, sua mãe se tornou uma das mais próximas seguidoras, presente na crucificação até o fim, sendo cuidada pelo Filho até o fim, que pediu ao amigo João que acolhesse sua mãe como se fosse a mãe dele. Os irmãos de Jesus se tornaram líderes da primeira igreja; Tiago e Judas escreveram cartas que constam do Novo Testamento.
 
Por ora a resiliência do afastamento que compreende que “santo de casa não faz milagre”. Depois, a esperança de que os mais próximos desfrutem da mesma oferta que tantos recebem, mesmo que seja de outros.
 
©2016 Alexandre Robles
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