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A CURA NA DOENÇA

Qualquer adoecimento, seja físico, emocional ou uma combinação, é, antes de tudo e em algum nível, incapacitante. Adoecer é perder algumas capacidades que a saúde pressupõe, seja de mobilidade, seja de percepção sensorial, seja de convivência social. Por isso que antes, leva-nos a uma observação moral, o doente não pode realizar o que o saudável pode. Desta observação inconsciente, extraímos avaliações carregadas de juízo e amplificamos o sofrimento. A primeira consequência natural é a frustração. O adoecimento nos rouba a possibilidade de realizarmos o que idealizamos. Quem adoece e, especialmente quem convive com o adoecido sofre esse processo de frustração. Ninguém faz planos para o adoecimento.
 
Nisso, o adoecimento nos cura de nossas fantasias e projeções de perfeição. O mundo não é perfeito, a vida não é, nada será. Ninguém realizará seus sonhos integralmente, é certo que a vida dará conta de mudar nossos planos muitas vezes. O adoecimento é o amigo que nos convida à realidade e nos liberta da cegueira da fantasia.
 
O limite incapacitante que o adoecimento nos impõe é útil para nos lembrar dos limites da própria vida. Pessoas que precisam retirar de sua alimentação certos ingredientes ou medidas sem controle de tais ingredientes, nada mais vivem senão uma necessidade que todas pessoas têm. O limite que exige uma certa dependência de auxílio para locomoção nada mais é do que a declaração de que todos os seres humanos precisam de auxílio para se locomover, em tudo na vida. A noção de independência que nossa percepção preconceituosa de saúde nos oferece é que é a doença da fantasia, todos dependemos de todos o tempo todo para nos locomover na vida, em todos os aspectos, sejam físicos, principalmente sejam emocionais.
 
Os adoecimentos físicos, aliás, têm uma capacidade imensa de nos levar a considerar nossas realidades emocionais e espirituais. Deles, Jesus de Nazaré se utilizou como metáfora o tempo todo.
 
Pessoas que digam que por causa de seu adoecimento não podem trabalhar o tanto que trabalhavam antes, que precisam dormir certo número de horas pois senão não vão conseguir se sentir bem no dia seguinte, que não podem comer em excesso, que sequer podem fazer planos muito precisos, pois não podem garantir como estarão no momento determinado, enfim, tais pessoas estão apenas relatando o que é verdade para todo mundo e que deveria ser uma consciência coletiva de que todos temos limites.
 
O adoecimento nos convida a assumirmos nossos limites.
 
No adoecimento não há vaidade. A beleza se vai, os ambientes terapêuticos e de tratamento não são convidativos, etc. E por mais que alguém faça de seus limites incapacitantes uma tentativa de promoção de sua capacidade de superação, ainda assim causará nas outras pessoas apenas a sensação de admiração momentânea, mas jamais será objeto de “desejo”, pois ninguém desejará ter limite de mobilidade, a fim de aprender o que é superar a si mesmo. Todos nós continuaremos sendo atraídos pelo projeto saúde e beleza.
 
A vaidade é a mais tola manifestação humana que alimenta a mais nociva expressão, a Inveja. O adoecimento tem o poder de isolar os dois.
 
O adoecimento coloca tudo no lugar certo. Quando adoecidos nós aprendemos a dar importância ao que realmente tem importância. Pessoas, quando conscientes de que estão próximas da morte, se agarram com firmeza ao essencial que geralmente tem a ver com a companhia de amados, perdão que precisa ser pedido e oferecido, pequenas alegrias, sabores, lembranças dos simples momentos, um cobertor e um bom ouvido. Muitas pessoas quando sobrevivem a episódios trágicos, começam a viver de verdade.
 
O adoecimento abre nossos olhos para o que é importante na vida.
 
Antes de se obter restabelecimento, adaptação, sobrevida, a cura essencial que o adoecimento nos oferece é a do olhar; quando nos deparamos e aceitamos em paz os limites da existência.
©2016 Alexandre Robles
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