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O HOMEM DO POÇO

Sentada e com calor, a nuca marcada pela linha, agulhas firmes nas mãos riscadas pelo tempo, olhar atento aos pontos do tricô herdado da avó e atenção dócil a cada moça que a acompanhava toda tarde. Reuniam-se na praça para tricotar, peças e causos.

 

Ela percebeu que tinha poderes especiais, de advinha, não do futuro, mas do coração das pessoas. Fazia algum tempo, havia acolhido sua própria história e descobriu que era uma espécie de forno onde os pães de muitas mulheres seriam assados. Ela tinha experimentado tantos amores e dissabores, que cada uma que se chegava para contar sua vida encontrava uma cúmplice de emoções. “Eu sei, minha filha!” Era o que cada moça ouvia quando lhe contava sua história.

 

De tanto acontecer, acabou que foi assim, tornou-se a grande mãe do vilarejo. “Ouço sua história”. É o que todas ouviam em seu olhar.

 

Ela encontrou o sentido de sua senda, num sonho. Sonhou que era uma jovem cansada, jovem demais para ser velha, mas envelhecida demais para sentir-se jovem. Como de costume, assim como uma Maria com lata d’água na cabeça, ia em busca de água na nascente. Num dia comum, havia um homem próximo à fonte, sedento. Ele lhe pediu água e ela temeu a aproximação. Ele calmamente expressou cuidado e de um modo irresistível passou a segurança de um irmão que a acolheria. Disse que nem precisava daquela água, porque conhecia uma que matava a sede num gole só.

 

Isso despertou sua curiosidade e a fez pedir a água que poderia matar a sede para sempre. Ele respondeu que era uma água que matava a sede interior, a sede da existência.

 

Mas como ele sabia que o balde de seu coração era mais seco que o que carregava nas mãos? Quem era esse homem cativante e misterioso? Seu olhar denunciou o óbvio, ela queria a água. Ele então pediu que fosse chamar seu homem.

-Homem? Eu não tenho. Falou.

-Você já teve vários e este de agora também está escapando entre seus dedos. Ele respondeu.

 

Nesse instante, como é próprio dos sonhos, ela foi levada a cada momento de sua vida. Lembrou-se da rejeição da infância sofrida e órfã, de como teve de trabalhar muito cedo para ajudar na sobrevivência dos irmãos e de todo desamparo que sentiu, por ser tão menina e já conhecer a dúvida da colheita, por não saber se haveria pão no dia seguinte, por conviver com a escassez.

 

Foi conduzida para os primeiros olhares dos homens para seu corpo ainda em formação, lembrou-se de um ou dois que tentaram seduzi-la e se aproveitar de sua inocência de menina, sentiu o asco do toque, chorou. Recordou a culpa por acreditar que era sua responsabilidade o descontrole dos homens, sua culpa ser bonita, sua culpa! Profunda tristeza!

 

A magia dos sonhos a levou para o tempo em que sua juventude experiente a fazia sonhadora e segura. O primeiro homem veio como jardineiro, perfumando sua mesa e prometendo protege-la como se cuida do jardim. Sua morte prematura a fez pensar mais uma vez que não era digna de felicidade. Secou a alma.

 

O segundo lhe chegou como se fora um resgatador, com olhar altivo e exigente, arrogante, assumindo ser especial por dar atenção a uma mulher que já tinha suas experiências. Seu coração foi esmagado pela sensação constante de débito, nunca seria mulher para compensar tamanho cuidado. Esmiuçou os sonhos.

 

O terceiro era bom, simples, honesto, humilde, carinhoso, de tão bom que era a fazia sentir culpada por não corresponder tamanho amor. Dizia que seu amor era suficiente para os dois. Ela acreditou durante um tempo, mas não foi. Descobriu sua própria capacidade de fazer sofrer alguém especial, de todos os homens que conhecera, este era o melhor, mas o que não lhe despertava como mulher. Adoeceu o olhar.

 

O quarto não entrou, apenas passou distante, dele quase nada soube, apenas que não era capaz de amar uma só de cada vez. Como todo sedutor, não entregava o que prometia. Veio como num cometa, repetindo histórias já vividas, dando-lhe o sabor de mesmice na boca, fazendo-a se sentir estúpida por cometer erros já superados. Embruteceu o coração.

 

Até que sentou-se à frente do quinto, o que lhe escapava pelos dedos, por haver chegado fora de hora. Ela havia decidido não se tornar refém destes envolvimentos, dera-se conta de que precisava olhar somente pra si mesma, naquela fase. O quinto era apenas uma possibilidade que estava se perdendo. Firmou os pés.

 

Por isso que sobre este ela apenas disse ao homem com sede que não havia história, não havia nada. Não havia homem para trazer.

 

Com seu olhar, sua pergunta invasiva e ao mesmo tempo benvinda, o homem da fonte conseguiu relevar à moça que sua sede não poderia mesmo ser saciada com os romances que vivia, da forma que vivia, mas que dentro dela mesma havia um poço capaz de jorrar água viva. Não fora, mas dentro.

 

Ela entendeu, a moça entendeu que precisava olhar pra dentro, que precisava parar de buscar água nos braços do próximo aventureiro, que precisava matar sua sede em outra fonte. Era, na verdade, a sede da menina, de sua menina. O sonho a levou direto pra um balanço, no terreiro da primeira casa. A menina lá estava, ela a viu de longe. Balançava, cabisbaixa. Criança não pode balançar assim, precisa estar com a cabeça pra trás, os pés esticados para dar maior impulso, cabelos soltos e sorriso feliz. Não ela.

 

Foi até a menina, a abraçou e repetiu as palavras que ouvia o homem da água dizendo:

-Você é uma menina linda. Não tem culpa pelo que lhe aconteceu. As pessoas que não lhe amaram na infância, fizeram assim porque foram incapazes, elas não conseguiram, mas você é digna de cuidado, de colo, de amor, de amparo. Mesmo que seus pais não tenham conseguido mostrar isso pra você, você é digna de amor e cuidado. Eles fracassaram, não você.

 

Nessa hora sentiu-se digna pela primeira vez, digna de ser amada como nunca, livrou-se do sentimento de menosprezo porque pensava que se havia sido desamparada de tantas maneiras e com tanta intensidade era porque ela não era digna de amor e o que lhe cabia na vida era aceitar o que viesse, cabia-lhe apenas mendigar e aceitar.

-Você está crescendo, seu corpo é belo, chamará atenção, mas você não é responsável pela maneira como os homens lidam com isso, qualquer um que lhe olhar ou tocar tentando despertar o que ainda não está em tempo é uma pessoa muito má. Você não! Você não é culpada por ser mulher, por ser bela.

 

Foi curada da culpa que carregava por atrair olhares masculinos desde muito cedo, isso a fez conviver melhor com as lembranças das aproximações e dos abusos que sofreu.

-Os homens que foram embora e aqueles que você deixou são todos fermento da massa, eles fazem crescer, mas não são o pão, eles somem para que sobre apenas o pão, eles não são você, mas ajudaram você a chegar até aqui, despeça-os com graça e perdão, deixe-os ir, saboreie de si mesma, você está pronta.

 

Neste instante foi liberta do passado, sentiu cheiro de pão assado, aromas do café e do queijo à mesa, cheiro de vida. Resolveu viver.

 

O homem que lhe mostrou seu poço foi seu protetor verdadeiro, pela primeira vez ela sentiu o abraço do pai, pela primeira vez ela se viu no olhar do irmão, pela primeira vez ela acreditou que era digna e que poderia sim ser amada por um homem que além de ser seu amante, deveria ser também seu protetor.

 

O homem do poço se foi. A mulher abraçou a menina. A velha acordou do sonho.

 

Despertou e decidiu sentar-se à praça pra tricotar e acolher todas as moças que, assim como ela, precisavam sonhar sua própria libertação.

 

Toda tarde ela encerrava a prosa dizendo que acreditava que um dia, depois desta vida, iria novamente encontrar o Homem do sonho redentor. E as moças diziam amém! Também dizia que valia a pena acreditar que há homens amantes e amigos por aí, que não são e não podem ser fontes de sua existência, mas que de mãos dadas podem juntos matar sua sede na fonte eterna. E as moças diziam amém!

 

©2013 Alexandre Robles

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