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PRA QUANDO O AMOR ESFRIAR

– Estou com frio.

Silenciou, pois não havia o que fazer. Todo improviso para tentar aumentar a sensação térmica já havia sido tentado. Seu coração estava trincando, como fina camada de gelo sobre o lago. Resignado, segurou o choro e seguiu à frente, puxando o carrinho com o que sobrara da peleja.

A vida havia sido rígida, como o mais denso inverno. Muitas perdas têm o poder de gelar a alma, impedindo-a de dilatar e bombear estímulos. A desesperança é como o frio que o guri sentia, caminhando a passos curtos atrás do pai, sem se dar conta de que o silêncio era seu grito impotente, diante da constatação de que chegou o tempo, antes profetizado, em que o amor de muitos esfriará.

E só de pensar que tudo começou quando o primeiro poeta desistiu! Eles fazem muita falta. Logo depois que tombaram suas penas, as canções também emudeceram, cordas silentes. Antes, pelo menos, as perdas eram amenizadas por causa das rimas, das prosas, dos sonetos, das harmonias, dos contos e das poesias.

Ninguém resistiria. Tudo virou burocracia. Pessoas passaram a ser consumidas como coisas. O afeto se foi. Não havia mais compromissos de vida toda. As amizades deram lugar a aproximações convenientes e funcionais. A Religião venceu, o mundo tornou-se breu.
Passaram a sentir frio, muito frio.

O amor esfriou. Se pelo menos os poetas e cantadores estivessem aqui, nos lembrariam de como era o amor! Os pais não conseguem mais cobrir os filhos com a esperança que aquece a alma e quando as crianças começam a perder o viço, pouco resta.

O homem fechava os olhos, já sem lágrimas. O amor esfria, tudo seca. Sofria por saber que seu menino era da primeira geração nascida no Inverno da vida. Gemia por dentro, pensando que nada mais havia o que fazer.

Até que ouviu novamente o garoto. Não entendeu o que ouviu e resolveu parar.

– Lá vem o sol, lá vem o sol – dizia, ainda com os dentes semicerrados de frio.

O pai achou estranho, parou, olhou pra trás e observou, querendo mesmo saber se ele cantava a música dos moços de Liverpool, que ninguém mais ouvia. Ele então cantarolou a mesma frase e apontou o horizonte.
O sol ainda se escondia atrás das densas nuvens, mas o que aquecia o coração do menino era de outra ordem, era entusiasmo, que é Deus dentro. A alma degelou e sentiram calor. O pai sorriu como há muito não sorria e fez sua prece de gratidão, que dizia:

– Este menino nos nasceu para mostrar o caminho do sol, nasceu para aquecer, nasceu para que os namorados se amem novamente, para que os casais namorem para sempre, para que os corações dos pais se convertam aos dos filhos e dos filhos aos dos pais, para que irmãos se abracem à mesa, para que os olhos sejam abertos e vislumbrem a vida na simplicidade. Seus olhos nos guiarão de volta, haverá novamente amor e afeto, todos seremos irmãos e nossas mãos servirão de ferramentas para reconstrução da vida. Um menino nos nasceu! É Natal!

Resolveram avisar a todos, de que surgia um novo tempo. Precisavam acordar os poetas e os cantadores. Entravam em cada vilarejo, batiam às portas, chamavam as crianças e cantarolavam a música do Gil: “Poetas, seresteiros, namorados, correi; é chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar”.

Os seresteiros afinaram suas cordas e foram se encontrando em romaria atrás dos dois, como gravetos lançados à fogueira, que ia ganhando força e brilho, iluminando e aquecendo.

As mulheres acenderam velas, convites pro aconchego, vestiram-se simples e belamente, olharam-se novamente e perceberam o encanto da feminilidade, agradeceram por terem a força das marias, a beleza das helenas, o bem-querer das madalenas e pediam que cantassem as canções das mulheres que habitam o Chico.

Os homens se sentiram espartanos, vivos, fortes, leais. Foram inflamados de virilidade protetora, deixaram sua apatia e convidaram as mulheres para a dança, conduziram, com afeto e firmeza, com doçura e segurança e as ruas se tornaram salões.

As crianças brincaram, livres, só brincaram, pois isso é tudo o que precisam fazer.

Os velhos levantaram a cabeça, olharam para os céus como um destino bonito, perderam o medo de morrer, enquanto se alegravam com a chance de poderem ver, mais uma vez, o amor de sua juventude bailando em cada criança, em cada pessoa que desfilava esperança.

Cantavam lindas canções e declamavam coisas do Drummond:

“Desejo a vocês
fruto do mato
cheiro de jardim
namoro no portão
domingo sem chuva
segunda sem mau humor
sábado com seu amor

filme antigo na TV
ter uma pessoa especial e que ela goste de você
música de Tom com letra de Chico
frango caipira em pensão do interior
ouvir uma palavra amável
ter uma surpresa agradável
ver a Banda passar
noite de lua cheia
rever uma velha amizade
ter fé em Deus
…

Rir como criança
ouvir canto de passarinho
sarar de resfriado
escrever um poema de Amor,
que nunca será rasgado
formar um par ideal
tomar banho de cachoeira

aprender um nova canção
esperar alguém na estação
queijo com goiabada
pôr-do-Sol na roça
uma festa,
um violão,
uma seresta
recordar um amor antigo
ter um ombro sempre amigo
bater palmas de alegria
uma tarde amena
calçar um velho chinelo
sentar numa velha poltrona
tocar violão para alguém
ouvir a chuva no telhado
vinho branco
bolero de Ravel
e muito carinho meu.”

E os poetas, os cantadores e os seresteiros prometeram jamais se calar novamente. Ninguém suporta atravessar os invernos da vida sem poesia, pois elas nos lembram que mesmo que o amor esfrie, uma criança pode nos nascer, para aquecer a alma, novamente.

©2012 Alexandre Robles

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