Publicado em

A ENTRADA

 

 

A entrada era estreita. Era o final de uma estrada que gradualmente também estreitava. Começava ampla na sua base, mas à medida que subia, tornava-se um caracol que rasgava a montanha, ladeando um precipício que forçava a multidão a se tornar fila.

 

Todos andavam ritmados, não havia paradas, e o que se comentava era a expectativa da chegada. Alguns se sentiam preparados para o momento, por causa dos objetos que carregavam, como relatórios de realizações pessoais, fotografias de viagens religiosas, livros sagrados, patuás, diplomas e homenagens; enquanto outros seguravam fortemente as mãos uns aos outros, esperando que sua união contasse a seu favor, talvez até porque se sentissem protegidos. Havia aquelas que desfilavam confiança ao se cercarem de gurus e líderes religiosos.

 

De modo geral o sentimento de todos era de confiança, mas não havia como esconder certa dose de ansiedade. Ouvia-se sussurros de rezas e dogmas decorados, o que aumentava a sensação de temor sobre o momento.

 

Quanto mais distantes da entrada, maior era a distração que o momento promovia, muita conversa, um raro momento de plena diversidade cultural, muitos idiomas, muitas cores, muitos traços.

 

Conforme a estrada encolhia em largura, maior ia se tornando a concentração. Era necessária acomodação dos passos, alguns esbarrões, pequenos deslizes, tudo com bastante calma, sem maiores complicações. Exigia que fossem desfeitos os grupos que estavam formando, o que causava certo constrangimento. Alguns iam ficando um pouco pra trás. Lamentos iam surgindo, discretos, por causa do que caía enquanto se ajeitavam na caminhada.

 

E a surpresa maior estava por vir. O que começava a incomodar era a diminuição de espaço, a estrada insistia em afunilar e preocupar os caminhantes. Até que apenas uma pessoa por vez podia prosseguir. Começavam a enxergar uma porta, era o primeiro sinal de que estavam chegando, agora caminhando um a um, tentando segurar o que podiam e a quem conseguiam.

 

No topo, encontravam uma área ampla, quando podiam se agrupar novamente e desfrutar certa tranquilidade que já estava minguando no percurso final da subida. Conseguiam se ajeitar e pôr em ordem o que carregavam nas mãos e os que subiram sussurrando retomaram seus ensaios.

 

De um lado, a escada que os trouxe até o que parecia uma ante-sala e do outro, um portal, com forte feixe de luz, mas estreito, tão estreito que somente era possível atravessar uma pessoa por vez.

 

Mais uma vez precisavam soltar as mãos de familiares e amigos, alguns temiam o fato de não poderem entrar com seus gurus religiosos, pois se agarravam à ideia de uma boa companhia para um momento tão importante.

 

Por maior que fosse o esforço, não havia condições de entrar com qualquer objeto, de tão estreito que era o portal, como estreito tinha se tornado o caminho. Houve frustração, pois quase todo mundo carregava o que podia para apresentar como prova de boas ações e importância histórica. Eram diplomas e títulos, fotos de inaugurações e formaturas, relatórios de trabalho voluntário, cartas de crianças e doentes agradecidos.

 

Estranhamente, apenas os que nada carregavam, não se frustravam. E, surpreendentemente atravessavam a porta de entrada com maior satisfação. Isso gerou indignação em quem passou a vida inteira tentando fazer o que achava justo e bom a fim de ser recompensado neste dia. Não aceitavam o fato de que toda sua história honrada fosse nivelada com a história de pessoas que nada fizeram de nobre, mas que tinham o mesmo direito de entrar.

 

Não havia negociação, pela porta estreita somente entraria quem não se apegasse a nada que carregava. Quem se desfazia de tudo o que passou a vida acumulando como garantia para aquela hora, se sentia leve, livre e seguro para entrar. E ao entrar descobria que nada do que na vida foi realizado com expectativa de recompensa ou de compensação por culpa, tem qualquer valor naquele lugar, apenas o que foi realizado em amor gratuito. Descobriam que a única recompensa de uma vida de amor é a comprovação do que já se sabia, que o destino justificava os meios, saber que um dia iriam habitar aquele lugar era suficiente para viverem a vida como se já estivessem ali, não para conquistar sua entrada.

 

E tudo o que havia sido realizado em amor não era computado pelos métodos humanos e históricos.

 

É o portal das indignações da autojustiça, é a entrada que expõe as reais motivações de todos os homens, é o afunilamento da consciência nua e exposta, sem as máscaras que escondem quem realmente somos.

 

E a história estava apenas começando, muitos sustos de libertação ainda estavam preparados.

2 comentários sobre “A ENTRADA

  1. Maravilhoso, como sempre! Li em voz alta para imaginar melhor o conto. Deus o abençoe!

    1. Amém! Que bom saber disso!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *