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EU QUERO VER

Um cego percebe Jesus em meio a multidão e lhe pede ajuda. Jesus se aproxima dele e pergunta o que deseja. Não é obvio que ele quer ser curado? Não. Assim como não no meu caso e no seu caso. Sendo cego, naqueles dias, fatalmente tornava-se um mendigo, como era o caso daquele homem. Ficava pelo caminho, contando com as migalhas da sociedade que preferia não enxergar sua deficiência. A mendicância se torna sobrevivente na carência.
 
Assim, quando carregamos carências existenciais profundas, nos tornamos mendigos emocionais e sociais. Passamos a aceitar qualquer migalha nos relacionamentos; nos submetemos a posições humilhantes, aceitamos como se fosse amor, o egoísmo usurpador das pessoas; exigimos de nós mesmos que a todos entendamos, razões e os motivos.
 
A pergunta de Jesus ainda ecoa. O que você quer hoje, uma esmola ou a cura?
 
De esmola em esmola a carência é administrada, mas Deus não atua no ramo da administração das carências e sim na ação libertadora e restauradora do ser humano.
 
Sabe a sensação de que as pessoas que estão com você só permanecem porque você faz tudo o que elas querem, mesmo quando isso lhe agride? Sabe a sensação de que você serve como peça de uma engrenagem, de uma máquina, de que seu valor no ambiente é apenas funcional, que no dia em que não satisfizer as expectativas, não servirá mais? Sabe o medo de perder o que tem, quando profundamente sabe que tal realidade é indigna, nem mesmo é verdadeira, que lhe desumaniza, mas que o medo de ficar sozinho(a) é maior que a situação em que se encontra? Sabe o poder de manipulação emocional que você desenvolveu para atrair a atenção das pessoas para a sua dor? Sabe a sensação de não ter certeza se a situação em que hoje está veio naturalmente como resultado da vida ou foi forçada com agressões e decisões precipitadas que o levam a suspeitar constantemente se deveria estar onde está?
 
São algumas das sensações da carência que nos torna mendigos.
 
O que você quer? Quer ser curado? É o que Jesus pergunta.
 
O cego abriu mão da mendicância e disse a Jesus que queria enxergar de novo.
 
2016 Alexandre Robles
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