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O RISCO DE SER LIBERTO

Jesus estava a caminho da casa de um homem que havia lhe implorado que salvasse sua filha da morte. Uma multidão seguia ao seu lado, espremendo-o e dificultando a caminhada. No meio, havia uma mulher que havia 12 anos sofria com um fluxo de sangue contínuo. Ela toca nas vestes de Jesus e é curada no mesmo instante. Jesus interrompe a caminhada e pergunta quem o tocou. Mesmo Pedro tendo dito que seria impossível determinar alguém específico já que todos o estavam tocando, Jesus afirmou que alguém o havia tocado de modo especial. A mulher, então, se apresenta e o ouve dizer que por causa de sua fé ela havia sido curada.

 

Era uma mulher e por isso não podia sequer olhar diretamente nos olhos de um homem, que não fosse seu marido, ainda mais em público; não podia conversar, não deveria estar ali. Obviamente, tocar em Jesus lhe condenaria sumariamente, porque além do fato de ser mulher, ainda sofria deste ininterrupto fluxo de sangue, quando a Tradição Religiosa determinava que quando a mulher estivesse em seus dias mensais de “incômodo”, não poderia sair às ruas porque se um homem inadvertidamente a tocasse ou fosse por ela tocado, ficaria impuro também. Ela já havia tentado todos os recursos médicos e num misto de desespero e fé (que é quando a fé pode se apresentar mais forte), resolveu se expor ao risco das ruas, entrou em meio a uma multidão de homens com quem trocava toques e ousou tocar diretamente no homem que todos ali já consideravam um santo; arriscou torna-lo impuro.

 

Isso se repete a cada dia em que nos vemos sem recursos, sem saída, sem solução; quando nada mais há a fazer e nos entregamos em clamor pedindo a Deus que nos salve, nos liberte.

 

Muitas vezes estamos doentes há anos, com chagas na alma, já cansados e sem esperança de que algo aconteça. Já tentamos de tudo. Conversamos; nos expusemos em ambientes que achávamos seguros, mas que transformaram nossa dor em espetáculo; fomos tratados como impuros pela religião, pela família, pela sociedade; acreditamos que não há mais jeito.

 

Até que um dia a gente crê que não importa o tempo que passou, apenas um instante é suficiente para mudar toda uma história; que não há nada em nós que seja tão ruim ou vergonhoso que seja capaz de impressionar, enojar ou afastar Deus de nós, Ele insiste em salvar; que não importa qual seja a força que em nós afirma que já tentamos de tudo e devemos simplesmente aceitar nossa doença, hoje pode ser o dia de mudança; que não importa se as pessoas ficarão incomodadas, constrangidas e se afastarão de nós quando descobrirem nossa ousadia de buscar a libertação, o mais importante é o encontro curador com Jesus.

 

Até que um dia a fé vence o cansaço de quem já tentou muito, o medo de quem sabe que pode ser rejeitado e morto e arrisca ser curado, acolhido, amado.

 

©2016 Alexandre Robles

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