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COMPAIXÃO

O que nos impede de nos tornarmos psicopatas é a capacidade de ter compaixão, porque é ela que nos faz sentir o que outros sentem e esta solidariedade com a dor do outro é o que nos limita em nossa maldade. Por ela também somos motivados a nos tornarmos altruístas e agirmos na direção da defesa de alguém, da doação de algo, da manifestação de sentimentos.
 
Nossa compaixão é seletiva. Sentimos por proximidade. Quando observamos diretamente, nos compadecemos; ou quando uma situação que eventualmente ocorra a milhares de quilômetros de distância, encontra similaridade em nós.
 
É também o que nos liga às outras pessoas. Sem ela, nos concentramos apenas em nós mesmos e nos fechamos obcecados em satisfazer apenas nossa necessidade. A falta de compaixão nos adoece à medida que nos faz pensar que somente nós sofremos, que somente nós existimos e que somente importa o que precisamos.
 
Ela pode ser estimulada através de um exercício de prestar atenção de modo consciente ao mundo que nos rodeia e tentar entender como se sentem as outras pessoas que nos cercam. A observação, seguida da ação simples na tentativa de ajudar alguém, cria o bom hábito de estímulo da compaixão, que nos salva de nosso egoísmo.
 
Agora, imagina o quanto nossa sociedade foi construída para desestimular a compaixão. Primeiro definiu que cada ser humano, individualmente deve lutar com sua próprias forças a fim de ser feliz. Somos apenas escravos do Mercado que se tornando nosso deus, sacralizou o consumo como a experiência religiosa universal e fez com que cada um de nós acreditasse em seu dogma da meritocracia, a fim de estimular a competição e abafar qualquer resquício de consciência culpada por ver a desgraça alheia, afinal, todo mundo tem a mesma oportunidade e quem se esforça bastante merece desfrutar de tudo o que há de melhor, afirma o código canônico do Senhor de nossa era, o Dinheiro.
 
A mesma sociedade que há pouco tempo experimentou a Revolução Industrial, que tornou cada ser humano numa peça da engrenagem da produção em escala; e há menos tempo experimenta a Revolução Tecnológica, que gerou o aumento exponencial de atrativos e distrações a fim de manter cada um de nós ocupado o suficiente com nossas próprias vidas limitadas, impossibilitando-nos de prestar atenção na vida que acontece ao nosso redor. Que, por fim, criou uma geração de haters, num ambiente hostil de ódio e estímulo à ofensa, ao abuso, à agressão. Estamos nos tornando historicamente semelhantes aos mais obscuros momentos em que a escravidão, o abuso sexual, a corrupção e toda sorte de maldade se institucionaliza, enquanto estamos suficientemente ocupados com as distrações de nossos gadgets mais sofisticados.
 
Houve um dia em que Jesus havia acabado de receber a notícia de que seu primo tinha sido assassinado, por motivos banais. Foi tomado de tristeza, própria de gente que ainda sente algo num mundo de insensíveis. Depois de um tempo de quietude, ele viu uma grande multidão que parecia estar perdida, sem rumo, com fome e dor. E mesmo com sua própria dor, teve compaixão dela e passou a cuidar de todos.
 
Jesus Viu, Sentiu e Agiu. Eis o exercício de nutrição da compaixão. Ela, que há de nos salvar quando chegarem os dias preditos por Jesus, em que o amor de muitos esfriará. Que bom que não de todos! Espero que não o nosso.
 
©2016 Alexandre Robles
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