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O BLOCO DOS RECALCADOS 

Uma fantasia dos dias de Carnaval é a ideia de que toda pessoa tem cerca de quatro dias para ser e fazer tudo aquilo que não pode na vida normal. Deve-se viver sob o rigor religioso e moral durante todo o tempo e para aliviar participa-se do Festival da Carne, um tempo em que se dá vazão a tudo o que reprime. Assim nascem os carnavais ao redor do mundo.

O problema, a meu ver, não é esse tempo de Carnaval, mas uma vida inteira reprimida, porque o Carnaval perde sua razão de ser e sua intensidade para pessoas que não vivem vidas reprimidas.

Conheço um monte de gente que amaria fazer tudo o que vê as pessoas fazendo no Carnaval, mas não faz por medo de ser condenado e de tanto desejo que carrega, torna-se invejoso e moralista, condenando tudo o que todos fazem. Aliás, quanto maior o moralismo maior o recalque.

A melhor condição do coração é de quando a gente não se permite realizar certos exageros de corpo e alma não porque tem medo de ser punido, mas porque já sabe o valor de uma vida equilibrada e já desfruta de uma vida cotidiana sem pesos e sem excessos, em paz, que vive o que de melhor pode viver.

Uma vez uma pessoa disse a um pregador: “eu sinto pena do senhor, pois não pode fazer certas coisas por causa da função que exerce”. Ele então respondeu: “a diferença entre nós não é que você pode e eu não, mas que você quer e eu não”.

Feliz é quem não precisa de períodos de alívio para cometer excessos, porque vive de modo equilibrado o que é bom, saudável e prazeroso, sem recalque, na medida certa.

2016 Alexandre Robles

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